Nobody expects the #spanishrevolution.

Antes de ir embora da Espanha, eu tive o prazer de ver o país pegar fogo.

Não no sentido negativo. Eu vi jovens, que antes eram apáticos, se concentrarem nas principais praças do país, em protestos pacíficos, contestando, conversando e pedindo mudança.

Imagem do this isn't happiness de um cara na Porta do Sol

Não é uma revolução de esquerdistas de Centros de Comunicação, Che Guevaras e quetais

Vi gente saindo do trabalho e indo pra lá, vi jovens alunos de exatas, saúde, vi gente sem trabalho e também vi alguns hippies. Vi redatora de publicidade ir trabalhar de voluntária escrevendo atas de reuniões. Vi designers fazendo cartazes e protestos. Não eram os típicos anti-sistema que protestavam. Era gente normal, que no Brasil protesta sentado no sofá.

Oposição. Não só contra o governo, mas oposição à oposição.

No Brasil, qualquer pessoa contra o governo Dilma é taxada de direitista. Tem que ser a favor de Serra, do Regime Militar e da volta da Monarquia. Não deixam espaço para o diálogo. Tudo é lá ou lô.

Na Espanha, até a semana passada, governada o partido de esquerda, PSOE (sigla para partido operário socialista espanhol). Acontece que o país sofre uma crise brutal, avassaladora, massacrante. A metade dos menores de 35 anos NÃO TEM trabalho, nem se quiser. O resto, aceita qualquer redução, piora ou o que for, para não perder. Qualquer pessoa demitida depois dos 50 tem a certeza de que não vai mais trabalhar nunca. As hipotecas são para 50 anos, com mensalidades maiores do que o salário médio da população.

Era uma receita linda para que a oposição ganhasse as eleições. Não teve jeito. Caiu tudo no colo da direita, ganharam de lavagem. Já estão pedindo até eleição antecipada para o Parlamento.

Segundo Eduard Punset, um dos grandes cérebros deste país, foi o voto de castigo que definiu as eleições. Governo ruim sai fora.

Só que o povo foi pra rua, pra dizer que também não acredita nas soluções da direita.

O Partido Popular reclamou. Disse que era uma tentativa de golpe. Tentou pedir que o governo expulsasse o povo das ruas, alegando que não é permitido concentrações de pessoas nas vésperas das eleições, porque podem impedir o direito democrático ao voto. As pessoas deveriam ir às suas casas, a refletir.

Imagem encontrada no Facebook de Davíd Rodríguez

Durante o fim de semana, ninguém foi pra casa refletir. Fizeram-no na rua, conversaram, discutiram. O resultado das eleições era o previsto, e continuou acontecendo, mas uma participação muito mais alta (na Espanha o voto não é obrigatório). O povo notou que é possível fazer mobilizações sem ter um partido por trás.

Intereconomía, um canal da direita, começou a fazer campanha contra, botou gente infiltrada para fingir que o protesto foi feito por desordeiros, tentaram botar a culpa no primeiro vice-presidente, enfim, tentaram melar o protesto.

O povo começou a protestar no Facebook, a desmentir as mentiras no Twitter. Começou a contestar a imprensa de uma maneira tão forte que até eles voltaram atrás. Hoje, os jornais não estão tão virulentos como há cinco dias.

O povo está se mexendo para pedir que os representantes representem de verdade.

Cansei de ver gente dizer que Puerta del Sol não é a Praça Tahir. Não é, por uma simples diferença. No Egito não há democracia. Na Espanha há, mas é parecida à do Brasil: nós votamos, mas eles não nos representam. Começo a acreditar que é possível que se invente uma maneira democrática na qual os políticos sejam obrigados a escutar a voz das ruas.

Nem que seja na base do protesto pacífico e organizado pela internet.

0 Comments on “Nobody expects the #spanishrevolution.”

  1. Mas Tarrask, a Espanha é um país de primeiro mundo? Não faz parte da União Européia?

    Deveria estar tudo às mil maravilhas por aí. A regra é clara.

    Como nossa impressão à distância pode estar tão errada? Como pode que o país tá quebrado, se ele está num Olimpo?

    😉

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