Vá pra faculdade

Artigo publicado em 2008 no Jornal Contraponto, da Paraíba.

Você sabe quanto Mario Testino cobra para tirar uma foto? O mais provável é que a maioria dos leitores nem saiba quem é Mario Testino (além do óbvio, que é um fotógrafo, e deve cobrar uma fortuna, senão eu não estaria perguntando).

A grande questão em diversas profissões é que não há produto material, licensa, currículo ou diploma que sirva para medir ou nivelar. Por exemplo, nada no mundo garante que o próximo projeto do Jonathan Ive seja algo fantástico. Ele já fez o iMac, o iPod, o iPhone, aquele mouse transparente sem fio e uma infinidade de coisas fantásticas, mas o seu currículo não serve muito. Onde estudou? O que aprendeu? Não há um “curso superior” que forme alguém igual a ele, pelo simples fato que, em alguns ofícios, é obrigatório que você não faça o que já foi feito. Logo, não há receita.

A diferença entre uma receita do Ferran Adrià feita por ele e feita por um outro cozinheiro que entenda tanto de comida é mínima. A diferença entre uma trilha sonora do John Williams e uma do Ennio Morricone é brutal. Mas ambos tinham formação em música e faziam exatamente a mesma coisa. Ou seja, pode ser que você não esteja treinado para ver (como as receitas do Adrià), pode ser que a diferença seja óbvia (como as trilhas), mas há sim uma influência absurda dos conhecimentos e experiências prévias do profissional que está realizando este trabalho criativo.

Não há fórmula para criar um “procedimento criativo”. A receita para escrever livros, pintar quadros inovadores ou fazer um anúncio que todo mundo saiba cantar o jingle. No máximo, pode-se arriscar que um determinado fulano é capaz de fazer, por experiência prévia. Eugênio Mohallem disse que “Antigamente publicitário era quem largava a faculdade de jornalismo, administração, letras, etc. Hoje, publicitário é quem larga a faculdade de propaganda.”

Entrar na faculdade para aprender, procurar um livro com as soluções ou jogar no Google “como ser publicitário”, “como fazer anúncio” ou “como fazer a minha marca vender mais”, não vai funcionar. O que funciona é refletir cada caso, contrastar com alguma experiência prévia ou com um senso comum fora de série, e a cada dia, fazer um trabalho diferente. É arriscado escolher uma profissão na qual você nunca vai terminar de aprender, nunca vai ser especialista, e que sempre alguém vai dizer que você não é bom. Mas ainda é melhor que fazer a mesma coisa todos os dias.

Como começar em uma carreira criativa, seja fotografia, publicidade ou ser uma estrela da internet: existem mil maneiras. Invente a sua, porque se você não for capaz, é porque está no negócio errado mesmo. E, se você for contratar um criativo, saiba que ele nunca pode estar 100% seguro do que está fazendo, porque ele estará resolvendo o seu problema pela primeira vez, e se ele achar não há nenhum risco de tudo dar errado, é porque ele está apenas copiando alguém.

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