Acabamos de começar

Na idade da pedra do século XX, as mulheres ficavam em casa, enquanto os homens iam ao trabalho caçar o dinheiro e o sustento. Elas eram escravas, não só deles, mas de um projeto de lar, de família e de vida, do qual não poderiam sair sem penas horríveis, como o ostracismo, pobreza e vergonha.

O feminismo, o divórcio e o trabalho fora de casa permitiram que elas saíssem, ganhassem o próprio sustento, as rédeas da própria vida, e agora elas têm quase todas as facilidades que os homens de antigamente tinham de controlar as próprias vidas. Podem iniciar um divórcio, viver desacompanhadas, dormir com quem quiserem, etc. Algumas desigualdades ainda persistem, mas houve progresso aí, inegável.

Antigamente, a mulher era a responsável por querer manter um projeto de união para sempre. Elas eram educadas para desenhar o happily ever after e lutar por isso, com unhas e dentes. Os homens, por outro lado, deveriam caçar e portar-se como caçadores: indiferentes à mudança, sempre preparados para pegar a escova de dentes e ir dançar noutro lugar.

Quando você diz que eu penso como uma mulher e ela pensa como um homem, está se referindo a esta maneira antiga de pensar: quer dizer que eu penso como quem busca, deseja e anseia uma união por muito tempo, um projeto de futuro. E que ela, produto do feminismo, está sempre pronta para começar de novo, sempre preparada para terminar. O problema é que estar pronto para o fim significa também ansiar por ele.

Uma relação só conseguirá durar enquanto nenhum dos dois for capaz de ver o fim.

Comments 8

  1. Toni

    “estar pronto para o fim significa também ansiar por ele”

    Ou, como aprendi com os Carpenters: “Freedom only helps you say goodbye”

  2. Pingback: Tweets that mention Primeiro post da série educação sentimental | Qualquer coisa de triste -- Topsy.com

  3. Dirceu Tavares

    Alexandre seu texto está bem escrito, mas creio que há uns equívocos.

    “Os homens, (no passado) …estavam sempre preparados para pegar a escova de dentes e ir dançar noutro lugar.” Não é verdade, no antigo acordo matrimonial havia a tragédia masculina, o homem ficava aferrado até o fim a sua esposa. Tinha é claro uma escapatória, a amante, mas que nunca poderia vir a ser a oficial por mais que a amasse. A esposa oficial deveria encontrar satisfação nos filhos, afazeres domésticos e na religião.

    Você muitas vezes, me parece, toma o tom equivocado dos homens feministos, de que os homens são culpados da infelicidade da mulher. Creio que em todas as eras existem acordos entre homens e mulheres. Antigamente havia um e que pedia muitos sacrifícios aos homens e mulheres, e dava a eles as regalias da sua época. Não há um algoz masculino e uma incapaz vítima feminina. Mulher não é vítima. Mulher sabe jogar com as regras do jogo social. Cabe a homens e mulheres respeitarem um ao outro nos acordos que tecem entre os dois. Parece careta, mas creio que a falta de respeito aos acordos traçados é a grande fonte de infelicidade. Falta de respeito aos valores do outro.

    Mas, sei que cai bem diante de tantas mulheres infelizes dizer: “perdão por ser homem, o crápula responsável pela desgraça da mulher”. Não foi o homem individual quem impôs a armadilha: “mulheres podem copiar os defeitos dos homens desde que consumam e gerem renda”. A mulher que acredita que poderá viver traindo seu companheiro e contando com o homem provedor de antigamente, está muito enganada. A conta não bate. Os homens se fingem de jacaré morto e depois de usufruir sexualmente rapidinho caem fora. E se ela queria dar o golpe do século, recebe o golpe do século, pois continuam atadas à responsabilidade de criar os filhos, de se manter belas com o corpo rapidamente deixando de ser a ninfeta e correm o risco de no final ficarem “abagulhadas” por ninguém querê-las nem para sexo ligeiro.

    Essa tragédia tem um vítima inconsciente que é a mulher e um cerebral algoz que é o homem? Se for verdade, então mulher é mentalmente desvalida e vai ficar pra sempre em má situação social.

    O interessante hoje é registrar e espalhar que compromissos as mulheres e homens, homens e homens, mulheres e mulheres, conseguem instituir para ter uma relação estável e espiritualmente construtiva.

    Concordo com você que a tragédia de hoje é começar uma relação já pronto para terminá-la e isso aparentemente apressa o seu fim. Homens e mulheres estão como na história da A Casa do Bode e da Onça, um com medo de confiar e viver com o Outro. Se um dos dois sairá magoado, farei com que não seja eu. Os dois pensando assim dá no que dá, nas mil relações fugazes, explodindo nessa constelação de seres magoados.

    Ficar sozinho um tempo se for preciso. E só montar acordo com quem merece ser feliz com agente.

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