Fábula de Carnaval

Outra história muito antiga

“Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
Eu tenho tanta alegria adiada, abafada, quem dera gritar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”
Chico Buarque, Quando o Carnaval Chegar

Dia quente e longo, cerveja gelada, alegria generalizada, música alta e diversa, ritmo contagiante, aventura, sorrisos, gritos, gargalhadas. Tudo parece girar um pouco, talvez por excesso de alegria, volume da música, ou mesmo álcool. A cidade que parecia morta às oito da manhã está pulsando ao ritmo da música às duas da tarde, mesmo sob o sol intenso do verão. Eu tenho a sensação de já ter visto essa cena.
Todo mundo já teve uma aventura no carnaval. O carnaval, por mais normal que seja, é a pura expressão da anormalidade. Tudo é fugaz, efêmero, dura até a Quarta-feira de Cinzas. As lembranças porém, duram para toda a vida. Sempre tem alguém que nunca vai esquecer o carnaval de 78, o de 83, o de 91, o de 2000…
É a época em que tudo é permitido, e por isso, é a época em que satisfazemos nossos desejos. Podem até falar de Natal, Ano-Novo, Páscoa, mas eu realmente acho que as pessoas são mais felizes quando são súditas de Momo.
Não importa se escolas de samba, se caboclada, se bonecos de Olinda, se axé, frevo ou até mesmo reggae. O espírito que anima tudo isso é igual e as pessoas partilham da mesma idéia para esses quatro dias: não há regras, nem imposições, nem limites para a alegria. Esta, então, é a única regra que impera no reinado de Momo: viva e deixe viver, aproveite o seu tempo enquanto os outros também o fazem, ao som de música e gente de bem com a vida.
O caos que impera é total. Momo está preocupado em divertir-se também. Na lei das festas, todos devem fazer o que bem entendem, serem completamente livres para serem felizes. Os corpos seminus, que normalmente seriam censurados, estão liberados. As pessoas se encontram, se abraçam e se beijam no meio da multidão. Amores começam e terminam no carnaval. Alguns apenas começam, outros apenas terminam, mas todos acontecem.
Em alguns lugares, a festa não pára. Continua até o dia seguinte, e o seguinte, por sua vez, até chegar à Quarta-feira de Cinzas. Daí, há a quinta-feira da ressaca, e a sexta. No sábado, com o desfile das escolas de samba campeãs, começa tudo de novo, pra matar as saudades. Outros lugares, as festas acontecem durante a tarde e o começo da noite em algum lugar, e depois continua em outros lugares. As pessoas não saem para um lugar fixo, mas ficam circulando de clube em clube, de bar em bar, de praia em praia. O importante é não parar. O cansaço só tem o direito de aparecer na próxima semana.
No meio da rua não há distinção social. Dentro de clubes e bailes, a entrada é limitada. Porém, a grande festa é popular, onde todos podem festejar e celebrar a gosto. E se não fosse assim, qual graça teria?

[Brasil, esquentai vossos pandeiros…]
O Carnaval chega ser tão importante que existem as prévias carnavalescas, em clubes, bailes ou blocos. Serve como aquecimento, preparação. A alegria começa a contagiar todos os lugares, e então o país inteiro explode numa só festa.

[…todo mundo bebe, todo mundo samba…]
Ainda é cedo, cerca de dez e meia da manhã. Acordo com a gritaria na rua. Ninguém é repreendido por acordar tarde. No máximo, é deixado dormindo pelos outros que vão para a farra. Dorme-se pouco, apesar de ser longo o feriado.
Numa cidade qualquer, numa segunda ou terça qualquer em um carnaval qualquer, no meio da rua, centenas – talvez milhares, quem sabe – de pessoas descem a ladeira, fantasiadas ou não, em grupo ou sozinhas, felizes. Um cachorro se esconde, assustado, tentando achar algo, ao meio de serpentinas, confetes e água que são jogados do alto. A música está alta, as pessoas tem que chegar ao ouvido do próximo para serem ouvidas (o que não chega a ser uma desvantagem, em certos casos), o sol está esquentando tudo, e as pessoas não param de pular feito pipocas ensandecidas.
Nas mesas postas estrategicamente ao longo da rua, pessoas comem e bebem, recuperando energias para voltar à multidão, onde pertencem.

[abre a porta e a janela, que é pra ver o sol nascer…]
Um grupo de cinco ou seis garotas estão paradas, esperando algo. Sorriem, conversam, apontam, fingem que não estão me vendo, olham para outro lado, piscam, sorriem novamente… Uma delas, ao ouvir a música que começa, dá um grito de alegria, começa a dançar, descendo a ladeira. Chama as outras, que a seguem. Uma delas ainda olha para trás.

[ô abre alas, que eu quero passar…]
Termino de tomar café e saio, às duas horas da tarde de uma terça-feira, para me unir a todo o povo que esquece de tudo e celebra o fato de estarmos vivos, livres e brasileiros. E quem sabe, conseguir bater um papo com aquela menina que olhou para trás…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.