Minha primeira namorada

Quando um menino começa a entender o mundo ao seu redor, chega aquela tensa e crucial hora: escolher aquela companhia que terá para a vida inteira. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

O seu time de futebol.

A gente pode mudar de paixão, de esposa, de carro, de hobby, de trabalho, de carreira. Mas mudar de time de futebol é considerado um crime de honra, uma falha de caráter inominável. Uma covardia consigo mesmo.

Mas, parafraseando os que fizeram a campanha pelo divórcio, por que eu devo carregar pro resto da vida as consequências de uma escolha feita por um moleque de oito anos? É praticamente um #EscolhiEsperar futebolístico, um até que a morte nos separe da bola. Um moleque de sete anos que se apaixonou pela flâmula rubronegra do framengo terá que sofrer pro resto da vida, enquanto que outro, que teve a sorte de ser bem orientado por algum amigo ou parente, colherá os louros da vitória por causa de uma escolha quase completamente aleatória?

Por pior que esteja o seu time, é ele, o seu, o primeiro, o único, que você carregará pro resto da vida. Quando ele trocar de técnico a cada três meses, você vai aguentar. Quando contratar um pereba, você vai achar o melhor pereba do mundo. Quando levar uma surra de 7×1, você é que vai segurar a dor. Ele pode mudar de técnico, de presidente, de donos, de jogadores. Você não. Você estará atado para sempre.

Isso é, amigos, o equivalente a obrigar todo mundo a casar, sem a possibilidade de divórcio, com a primeira namorada. Que não necessariamente seria o melhor para a sua vida (a minha não seria, acho eu), mas era a melhor naquele momento. Porque o seu avó ia pro estádio. Porque toda a família torcia por ele. Ou porque o primo que você não gostava era do rival. Qualquer razão valia. Como torcer pro framengo quando Zico jogava lá, a Grobo mandava no país e o framengo era o time preferido da Grobo. E então, nada mais mudaria na sua vida. Seu namoro viraria noivado, casamento, filhos (uns campeonatos cariocas, um brasileirão na cagada), e morte. Com direito a brigas, decepções, traições (tipo ter que torcer pra outros times, só pra ver o adversário perder), e morte. Uma morte horrível. E você teria que continuar, como pai de bebê feio, a dizer que era a coisa mais maravilhosa do mundo vestir o manto sagrado.

Mas aqui fora na vida real, amar se aprende amando e as pessoas normais só começam a entender o mundo depois de rodar um pouquinho. Conhecer umas cores diferentes, umas maneiras distintas de jogar, umas pegadas diferentes, umas táticas novas. Menos no futebol. Dentro do campo, somos obrigados a ficar para sempre com a primeira ficante.

Não quero insinuar que minha primeira namorada era uma má pessoa, nem que Zico não tenha sido um dos grandes craques do futebol. Ela só desistiu de mim um dia (algo que não é tao recriminável assim) e ele perdeu uns pênaltis quando vestia a amarelinha (e será recriminado até a morte por isso), e a vida continua.

Mas o que eu acho que é meio massacrante é ser obrigado a aguentar, pro resto da vida, aquela ilusão de que o time que lotava o Maracanã nos anos 80, a seleção do Pelé ou aquela menina cujos olhos eu nem lembro mais a cor eram a melhor coisa de todos os tempos e vai continuar sendo pra sempre.

Logo mais, com essa modernidade líquida, as coisas vão ficando cada dia mais complexas, e falta pouco para que as pessoas, sensíveis e ofendidas pelo sofrimento, assumam sua condição e, em breve, surgirão trans-torcedores, pessoas que passaram a vida inteira frequentando o Parque Antártica antes de se descobrirem corintianos, ou cidadãos com dupla cidadania que resolvem abandonar a identidade e as cores de um país em busca de um campeonato mais decente, ou de mais chances de ver o capitão do seu time levantar um troféu.

A vida continua e a seleção brasileira, senhoras e senhores, é um time ruim pra caralho de assistir. São cinco copas do mundo. Não sei quantas copas América. Teve o Pelé, gente, o Pelé.

Tá bom, você venceu, batata frita. Minha primeira namorada era a menina mais bonita que eu conhecia pessoalmente. Mas depois eu melhorei. E piorei. E melhorei de novo.

E fica difícil torcer pro Dunga.

Vão pra um bar, conheçam outras pessoas. Saia de casa, que a roedeira passa.

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