O batizado de Uilame

Escolher nome é o maior ato de controle que o pai tem sobre o filho. A herança do nome, que o filho carregará por toda a vida, é permanente, imutável e inapelável, na grande maioria dos casos, salvo algum apelido ou outro nome que consiga chegar a ficar mais conhecido. Sempre pode aparecer um novo Mark Twain. É caso tão sério que precisa até de registro em cartório, pra provar que não é brincadeira.

O nome diz o que os pais esperam do filho. Que ele seja importante, santo, parecido com os irmãos, igual ao pai, igual ao artista da televisão ou ao bisavô coronel reformado, que era um homem sério e direito. Pode ser o nome de um mocinho de filme, de anjo, nome de flor. Aquela palavra que escrevemos milhões de vezes quando tentamos criar uma assinatura, e que depois repetimos mais outras milhões de vezes, contém tantas esperanças, anseios, sonhos, esforço e sacrifício dos pais, é a grande escolha de uma vida, e o dono e interessado direto no assunto nunca tem idade suficiente para ser ouvido ou ter opinião.

Algumas sociedades dão um nome infantil, e depois o jovem adulto ganha outro, de acordo com suas características, temperamentos, feitos, algo que o valha. Nós, civilizados, deixamos essas tontices pra lá. Nome é nome e você carrega pro resto da vida. Acabou.

Assim, os pais de Uilame chegaram felizes na manhã de Domingo à porta da igreja. Iriam batizar o primogênito, e já tinham discutido, brigado, concordado, discordado, argüido a família, os vizinhos e metade da torcida do framengo. Queriam que o filho fosse importante. Que tivesse nome de jogador de futebol. De ator dos filmes. Que um dia pudesse ter sua casa, seu carro e criar seus filhos sem aperto. Quem sabe até aparecer na televisão, ser delegado ou vereador. Que fosse reconhecido como um grande homem, o dr. Uilame. A mãe ficaria orgulhosa em se apresentar. “Prazer, sou a mãe do doutor Uilame.” Encheu o peito de orgulho, ainda com o bebê de colo. Imaginou sua velhice, com dignidade, morando numa casinha branca, presente do filho importante. Este, como bom homem, bem criado, viria visitá-la sempre, pedia a benção, honrava a tradição e a lei de Deus.

O pai acertava os últimos detalhes com o padre. Quem sabe o padre não seria bispo? Bispo não, diácono. Combina mais com o nome do filho.

Não seria um Clinton, um Hurt, um Wallace, um Shakespeare, um Ockham, um outro qualquer. O sonho deles é que o filho fosse igual ao Uilame Bonner.

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