O que é que a gente faz com os espólios quando o amor acaba?

Quem me segue há mais tempo e/ou me conhece um pouco além dos posts crípticos e de algumas frases legais sabe que eu estou, há vários anos, tentando terminar uma porcaria de um romance.

Começou em outro país, em outra vida, eu era outra pessoa. E numa época fria eu comecei a escrever feito um louco pra contar uma história. Durante acho que quatro anos, continuei colocando mais e mais palavras, frases, parágrafos, ideias e frases.

Nos últimos tempos, andei tentando terminar, colocar os últimos pingos nos is. E falhei miseravelmente. Para cada lugar que eu olho, só vejo desolação, buracos, besteiras incompletas.

Eu não gosto mais da história. Não quero mais ver aquela ideia na minha frente. Time to move on, como fã de qualquer sucesso adolescente, como gente que começa a ler 50 Shades of Grey e depois descobre coisas mais interessantes, como quem entra no facebook e depois de alguns anos descobre que só conseguiu se afastar das pessoas (com razão). Ficou chocho, sem graça, sem gosto, incolor.

E aí, vei, publica

Nem. Se nem eu tenho mais coragem de reler pra procurar encontrar as coisas legais que tem lá no meio (eu sei que tem, de vez em quando faço frases legais, o problema é o todo), não é você que vai gostar. Os pilares não são a catedral, o esqueleto não é o corpo, a linha de baixo não é a música. Por mais que haja uma semente, a crise agora é imensa, falta muita água ainda pro romance germinar.

Vai apagar o arquivo?

Gente, eu não apago nem email de conta de cartão de débito (mentira, apago todo email enviado por empresa). E é exatamente por isso que estou escrevendo este post: o que me preocupa é saber que tem um arquivo de texto com dezenas de megas (DE TEXTO), mais de 800 páginas de uma história que deveria caber em 100. E cabe.

Mas eu não sei como emagrecê-lo.

Tenho medo que ele venha me assombrar de noite. De repente alguém lê um parágrafo, gosta muito, e tenta me convencer a terminar POR CAUSA DAQUELE PARÁGRAFO. Todos os outros são horríveis, mas aquele parágrafo merece melhor companhia. Tenho medo até que eu mesmo ache isso, numa releitura sem querer, fuçando arquivo em busca de uma ideia, em busca de algo pra escrever.

Bota uma senha, e apaga. Ou bota numa time machine da vida, pra reler daqui a 10 anos

É. Talvez. Aí, daqui a 10 anos, eu releio e descubro que tinha uma ideia ótima que virou datada. Ou que perdi 5 anos escrevendo 800 páginas que só valem um parágrafo.

Continua

Não. Não quero mais. Não aguento mais. Tem uma hora que você cansa, broxa, perde a vontade até de estar perto. Fica o tempo inteiro pensando em outras histórias, sorri cada vez que encosta o lápis no papel para escrever outra coisa, mas quando vê aquela página em branco, nua, entregue, o cérebro simplesmente entra em pânico e quer fugir. Não dá.

Sem tesão a gente não escreve.

Deixa que a página fique com aquelas palavras, que ficarão abandonadas, de ninguém.

Tristes porque foram minhas e não podem ser de outro.

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