A solidão não dá trabalho

Posted by tarrask on July 06, 2013 · 2 mins read

Imagino a vida desses escritores-jornalistas-blogueiros-colunistas famosos que vivem em cidade grande, têm milhões de amigos, vão a todas as festas, conhecem todo mundo, recebem milhões de convites pra eventos, convivem com a própria família, respondem aos fãs no twitter e etc; termino ficando zonzo.

É difícil escrever uma boa frase por dia. Juro. A minha média é de duas por ano. Num ano bom.

E eu sou dos caras que passam quatro dias em casa, vendo filmes, lendo livros, escrevendo e apagando, assistindo e debatendo dentro da minha imensa e careca cabeça Ailin Aleixo e Alain de Botton, tentando chegar àquelas sete ou oito palavras perfeitas pra fazer um verso alexandrino.

E “ cês viram o parágrafo passado “ termino morrendo num trocadilho.

Se eu fosse famoso, tinha que escrever a coluna pro jornal, logo, que a entrega é segunda-feira. Tinha que revisar os originais do livro, que a editora já está cobrando e, falando nisso, também escolher com que roupa devo ir pro samba pro lançamento. Tinha que dar aulas, vernissages, entrevistas e explicações. Colaborar com aquele amigo baixista que quer uma letra legal praquele samba-maracatu-embolado.

Mas eu não sou. Segunda-feira não preciso entregar nada. Ninguém revisa meu próximo livro, nem eu, e nem tem lançamento pra ebook. Meu amigo baixista perdeu meu telefone. Só dou explicações pro imposto de renda, e nem são muitas.

O lado bom disso tudo é que sobra muito mais tempo pra escrever. Parece meio louco isso, mas é verdade. Quanto mais cobrança, menor a capacidade de escrever do indivíduo. Ou, em outras palavras, se você gosta de um autor, que não seja eu, deixe o cara quieto. Pare de cobrar o sexto livro de Game of Thrones.

Como eu tenho todo o tempo do mundo, poderia escrever todo tipo de coisa. Os escritores famosos, que são pagos pra isso, passam a maior parte do tempo fazendo outras coisas. A maioria, perda de tempo. O resto, blogagem.