Deus, na sua infinita bondade, presenteou-nos com o amor e a fé.
O Diabo, maligno, confundiu-nos fé com igreja e amor com casamento.
Machado de Assis, A Igreja do Diabo (adaptada)
Princesinha,
Responder uma semana depois também vale. Com a cabeça fria ou no calor da dúvida, são reflexões diferentes, mas todas válidas.
O problema de termos uma discussão tão longa em termos de quantidade de palavras (eu escrevi 3 páginas, vc respondeu 5) é que são vários pontos a ser tocados. Já chegaremos na possibilidade de fazer um livro.
Você é um conflito ambulante porque tem desejos contraditórios. Quer duas coisas que, aparentemente, excluem uma a outra. Você não pode ser virgem e puta. Mas quer.
Eu sou uma pessoa estranha porque realmente me divirto, me sinto bem, gosto de observar outros seres humanos. Quando posso entender o que passa pela cabeça deles, então, aí é que gosto mesmo. Escutar a sua opinião, ver como você pensa, discutir, acho fantástico. Devia ter estudado psicologia na universidade.
Quando eu escrevi o mail, você pelo menos dizia que tinha dúvidas. Quando ia dar pra ele, se ia dar pra ele, em que situação, quando era certo, o que ele iria pensar se você desse logo ou se demorasse mais algum tempo, se ele perderia o respeito, se ia achar que você é fácil, etc.
Nós temos formação bastante diferentes, o que nos gera conflitos e opiniões opostas, com relação a certas coisas. Eu sou homem, e por mais que tenha uma família católica, nunca ninguém diria que é feio que eu pegue todo mundo, leve todo mundo pra cama, etc. As mulheres ainda vivem sob essa pressão social bizarra de terem que aparentar uma santidade que não existe.
Você sempre foi incentivada a procurar um homem certo, de futuro, alguém que pudesse apresentar à família. Levar a vida a sério. Obedecer certas regras, que não estão muito bem definidas e são variáveis.
É uma menina fofinha. Certinha. (Sem juízos de valor, não estou dizendo que você é pior pessoa, ou má, ou menos, nem nada disso. Se eu achasse isso, não falaria contigo). Você gosta de saber as consequências das coisas antes de fazê-las, de não arriscar muito, não quer magoar ninguém, não quer decepcionar, dá muito valor à opinião alheia. Isso é extremamente importante, e uma corda bamba difícil de equilibrar. Eu só te desejo força e sorte pra fazer isso.
Eu recomendo que você jogue esse jogo. Ninguém precisa saber pra quem você está dando. Nem (e principalmente) pais, avós, tios, familiares em geral. São pessoas que querem o seu bem, mas que, pelo menos no seu caso, acham que você deveria era arrumar um namorado sério, comprar uma casa e um labrador. E sempre fazer papai-e-mamãe, com fins reprodutivos.
Eu acho que você quer mais que isso da vida. Estou certo, não?
Qual é a diferença entre uma lady e uma puta?
Na minha opinião, não é o sexo que você faz. É mentir, enganar, trair. Se você não tem um compromisso com ninguém, você não pode trair. Se você sair com Michel, Victor, Léo, ou qualquer outro cantor de sertanejo, e não prometer (ou der a entender) fidelidade, não está traindo.
São pessoas que machucam pessoas que machucam pessoas, e assim, no fim, nenhum de nós presta. Todos viramos cínicos, e uma hora nos cansamos e casamos com alguém que não possa mais nos machucar. Acomodamos.
Poderia fazer uma metáfora parecida com a Samsara, a roda da vida do budismo. Os budas, “iluminados”, são os que conseguem escapar dessa roda de machucar porque foram machucados, e tentam libertar mais gente possível, trazer gente pra fora da roda.
Ninguém pode entender o sofrimento sem sofrer, é fato. Mas sofrer é uma merda.
E vou além. Toda mulher e todo homem é igual. E ao mesmo tempo, todos somos especiais, de alguma maneira.
Todos queremos ser aceitos por outra pessoa. Termos alguém que entenda as nossas angústias. Que nos apoie nas horas tristes. Que sinta tesão por nós. Que nos ache bonitos, sexies, inteligentes. Que ria das nossas piadas. Que nos queira. Que nos diga que estamos errados e nos ajude a melhorar. Etc.
O que fode toda relação humana é que nós queremos uma coisa e dizemos outra. Quando dizemos a verdade, o outro não acredita, ou finge que não acredita. Eu fiz essa experiência psicopática algumas vezes, quando decidi transformar a minha vida amorosa num laboratório. Uma menina me disse que queria somente uma relação aberta. Só pra nos divertirmos, por um tempo. Eu disse “beleza”. Acho que ela se frustrou. Queria, na realidade, que eu dissesse que não, que pensássemos que no futuro poderíamos continuar juntos. Ou seja, ela dizia X e queria Y. Eu disse que X tava bem. E ela se frustrou.
Outra vez, eu disse X. Ela pensou que eu estava dizendo isso, para na realidade significar Y. Eu continuei repentindo que só queria X. Ela passou um tempão acreditando que iria mudar a minha opinião.
O mais difícil sempre é entender o que os outros querem. Nós mentimos pra nós mesmos, e até pra quem estamos apaixonados. A lição que eu aprendi com o Dr. House é: “mas por quê mentimos? Com quê objetivos?”
A primeira menina do exemplo mentia porque queria que eu dissesse que não. Queria que eu dissesse que queria namorá-la a sério e por muito tempo.
A segunda mentia pra ela mesma, querendo acreditar em outra coisa que não fosse real. Mudar a realidade.
Por que você mente? Por que mentiria? Você quer mentir? Pra quem? Acha que vale a pena? Acha que alguém está mentindo pra você?
Se um cara (qualquer um desses dois) olhar nos seus olhos e disser: linda, quero te comer.
Estará mentindo?
Meus conselhos.
1 “ Não minta para você mesma. Se você quiser uma relação com um cara, diga a você mesma: quero esse cara para mais do que uns momentos, mais que uns dias, mais que uns beijos. Se não quiser, não minta pra você mesma.
2 “ Não minta pra eles. Se você quer uma amizade com sexo, diga que é isso que quer. Se quer só curtir, diga que é isso. Se tá afim de ver até onde pode ir, de um rolo até um namoro, também seja clara. As putas são as que mentem.
Agora, vamos entrar no processo de auto-análise:
Se você não se conhece, como vai ser sincera com você mesma?
O conhecimento vem de duas coisas: experiência e informação. Você nunca vai saber tudo sobre relacionamentos, amor, dor, sofrimento, chifre, se não viver. Mas também precisa refletir, escutar, pensar, ouvir a opinião alheia. Por isso eu também adoro conversar, ler e escutar: aprendo muito.
Tipo, você sabe que a grande maioria das regras religiosas são datadas no tempo, não? Eu acho que os evangélicos são mais problemáticos com isso, pegaram as regras mais bizarras das leis católicas (masturbação é pecado, sexo é pecado, etc é pecado).
Não lembro exatamente agora a parte, mas tá lá, literalmente, na sua querida bíblia: se a noiva não for virgem, deve ser apedrejada (provavelmente, no levítico).
É uma regra misógina, idiota e burra.
Não quero discutir deus com você, se existe ou não. Vou discutir regras da bíblia. Veja este vídeo. O cara é judeu.
Acho que algumas regra religiosas são importantes, pra nos ajudar a termo disciplina, a pensar e a refletir. Porém, nunca obedeço cegamente a nada. Ninguém. Tudo tem que ter uma justificativa.
Você sabe porque deve casar virgem, né? Porque senão seu futuro marido não saberá quem é o pai. Foi por isso que inventaram o DNA e a pílula. Se você souber usar, pronto. Não há problema.
Do mesmo jeito que muitas outras regras da bíblia são quebradas por cada uma das facções religiosas de cada uma das religiões descendentes de Moisés. Você é responsável por escolher o seu caminho.
Na minha visão digamos religiosa do universo, deus não é uma pessoa. Não é um pai que te castiga quando você faz algo errado e te dá coisas boas quando você faz algo certo. Isso é impossível e infantil. Freud já explicou. Ele não vai ficar com raiva de você porque você está dando prazer ao seu corpo. O seu corpo é feito pra isso. Cuidado, porém, para não fazer ao seu corpo coisas que não gosta, que machucam ou que te façam sentir mal.
Só faça o que quiser, só faça o que gostar. O que te fizer sentir bem.
E a única coisa religiosa-cristã que eu digo: lembre-se que a grande maioria das regras de comportamento feminino, da bíblia, estão no velho testamento, que é todo metafórico e cheio de regras absurdas e pessoas que vivem 500 anos. O resto das regras que concernem à sexualidade foram escritas por Paulo de Tarso, um misântropo desumano, que achava que as mulheres eram seres inferiores, e sustentadas por 2000 anos por homens que usam saias e estupram crianças em seminários. Você acha que são autoridade pra falar em sexo?
Termino o mail com uma frase do Luís Fernando Veríssimo, que encontrei hoje de manhã e discordo completamente.
“E, ao contrário do que você sempre pensou, felicidade não é viver uma grande paixão, é ter alguém para coçar as suas costas.”
Eu discordo. Prefiro acreditar que felicidade é viver apaixonado.