A bruxa, quando dormia, sonhava com distâncias que não existiam.
Dentro do bosque, mandava sinais, lia mensagens e inventava lembranças de encarnações passadas, fogueiras e poderes simbólicos, mágicos e atualmente desconhecidos.
Quando dormia, achava que o mundo dos sonhos não lhe pertencia, mas era dividido com várias outras criaturas misteriosas. As criaturas do sonho, pensava, tinham vida própria, regras próprias e estavam presas às próprias palavras. Magia não era mais do que entender as verdadeiras palavras, sua gramática e a maneira de usá-las.
Sabia que, se não usasse as palavras corretas, nunca conseguiria alcançar o seu objetivo no sonho, e nunca teria aquele encontro no coração do bosque.
Era um sonho repetido.
Por três vezes, somente viu o bosque.
Na quarta, conseguiu entender que tinha que ir ali, entendeu a mensagem.
Por três vezes, não conseguiu sair da cidade.
Na quarta, venceu a barreira do guardião, e cavalgou por muito tempo.
Por três vezes, escolheu a estrada errada e perdeu-se por caminhos tortuosos, de sonho.
Na quarta, entrou por uma clareira mata adentro.
Por três vezes, se feriu em espinhos, sangrou, chorou e acordou.
Na quarta, aguentou a dor e chegou lá.
Por três vezes, viu um vulto sentado de costas e sentiu o coração bater forte, acusando o interlocutor do encontro.
Batia tão forte que a acordava antes que pudesse pronunciar a palavra.
E então lembrou que não era ela quem controlava o ritmo das batidas do seu coração. Era outra bruxa. Ou ela mesma. Um outro pedaço dela. Uma dupla personalidade, um indivíduo alheio à sua vontade, dentro do próprio corpo.
Sentiu-se tão triste ao acordar, tão dividida, que acordou em dois corpos diferentes, que nunca mais se uniram.