O copo

Posted by tarrask on September 09, 2012 · 7 mins read

Se um dia nois se gostasse

Se um dia nois se queresse

Se nois dois se empareasse

Ai se sêsse, Zé da Luz

“Se naquela noite você me quisesse, eu teria sido sua.”

Eu ouvi a frase saindo do esconderijo mais improvável: o sorriso gigante emoldurando a expressão de felicidade dela, escapando quase sussurrada, com os olhos brilhantes, fiadores de uma verdade obscena. Ela estava exuberante, radiante, gostosa mesmo. Entrou e todo mundo parou para ver. Vestia um vestido curto, que exibiam as pernas maravilhosas e distraiam os olhares de qualquer outro acessório de vestir, novo namorado incluído.

Ele apertava a mão de alguns amigos em comum, cumprimentava a todos, dando dois beijinhos e dizendo coisas específicas a cada um, e próxima à minha orelha, baixinho, soltou a frase, ensaiada por várias horas em algum espelho de banheiro. Eu sorri, dei-lhe dois beijos e abraço, saudei o acompanhante e tratei de lembrar da conversa.

Ela

Fora numa cidade de praia, num bar de calçada depois de uma festa. Eu não via a maioria daquelas pessoas há tempos, e não conseguia prender a atenção em ninguém, vencido pelo álcool e pelo cansaço. Ela apareceu tarde, não saberia dizer a que horas se juntou ao grupo, vinda do trabalho, sem estar especialmente arrumada, sem maquiagem, talvez tivesse um dedo de cabelo preto embaixo do caramelo tingido. Lembro que trouxe um copo de cerveja e sentou ao meu lado. Tentou me animar com alguma piada, porque eu lembro que não achei graça e fui chamado de chato. Apesar disso, a conversa continuou. Ela estava mais interessada do que eu, e até parou de beber. Esvaziei e enchi por repetidas vezes o meu copo e o dela. Enquanto conversamos, Lisa não bebeu.

De volta à festa, o namorado levantou-se para pegar um prato, e eu aproveitei o meu melhor espirit d’escalier e me aproximei dela para ripostar.

“Se você quisesse ter sido minha, teria sido. Ponto.”

Lisa fez uma cara de surpresa, depois de raiva. Continuou sorrindo, mantendo as aparências. A minha diversão nessas festas onde todos conhecem pedaços do passado alheio é observar as gafes. Estava no camarote vendo-a fingir que a minha memória me mentia. Sentou-se ao meu lado no sofá, cruzando as pernas devagar, acomodando a bebida, levantando um pouco o queixo e inclinando a cabeça. Foi quando eu soube que tinha acertado o golpe da resposta.

Ela tomou um gole e perguntou se eu tinha certeza. Eu estava muito bêbado para ter notado qualquer coisa, nem notei que ela estava interessada, afirmou segura.

O namorado voltou com o prato e sentou-se ao lado dela, imprensando-a no sofá temporal, entre o pretérito-que-não-foi e o futuro-que-esperamos-que-seja. Ele é um cara bacana, desses que acreditam em independência e não ligam para o passado da namorada, mesmo que ela esteja sorrindo para ele e deixando que a imaginação do dito passeie pelo decote dela, relembrando o corpo imaginário dela e enchendo-lhe a cabeça de minhocas, pulgas e percevejos de idéias tortas.

“Você tava tão bêbado que não podia notar nada do que acontecia ao seu redor.”

“Não podia notar mesmo. Eu fiquei completamente bêbado. Tinha dois copos na minha frente, mas só eu bebia, e eu continuava enchendo. Um era o seu, que você nem tocou. Eu enchia e bebia dos dois. Às vezes eu perco a noção e faço essas coisas meio idiotas. Você não lembra dos dois copos?”

Caras bacanas aparentemente não ligam para o passado da mulher. Mesmo quando elas estão sorrindo para ele, cruzando as pernas e deixando que a imaginação do dito passado esteja relembrando a cor imaginária do mamilo dela, que endurecia pela provocação. A sala inteira conversava futebol ou receita de sushi, e insetos malditos passeavam na cabeça da moça no sofá.

Eu abri o meu melhor sorriso de agricultor de discórdia.

Ela esteve interessada em mim, naquela noite no bar. Era mais óbvio que a morte precoce da Amy Winehouse, mas Lisa não queria dizer nada. Estava sobre o salto alto das mulheres seguras da conquista ganha. Esperava simplesmente uma iniciativa protocolar para que todos fossem felizes para sempre. O bêbado aqui não quis, não foi, não viu a banda passar, e cada um foi esquentar a própria cama. Um desperdício de noite. E a culpa foi dela, que era banda e passou pela rua sem tocar música nenhuma. E agora ela sabia disso. E ninguém poderia provar o contrário.

Terminei de rematar.

“Pra mim, quando alguém perde o copo numa festa, é hora de ir embora. Ou está bêbado demais para se controlar, ou achou alguma razão para perder o controle. Você não acha, Como-era-mesmo-o-nome-do-namorado?”

O trouxa concordou comigo, e eu fui buscar outra cerveja, apontando pro meu copo vazio.

Eu, por você

Lisa não sorria mais, mas não precisava mais ficar presa no sofá-linha-do-tempo.

Antes que eu saísse, ela se levantou para se despedir e me perguntou:

“Falando sério?”

“Sim. Você me olhava com olhos de promessa, mas sorria como quem nada quer. Eu não queria só uma brincadeira e nada mais. Você me fez escolher entre uma vida inteira para me arrepender por uma noite ou um futuro iluminado por um passado imaginário.”

Dei-lhe dois beijos, um abraço muito forte e fui embora antes que pudesse ver-lhe o rosto. E descobri que, às vezes, os elevadores demoram muito mais que os táxis.

Esta é uma nova história de uma série que eu estou planejando. Gracias Silvinha, KK e Taís pelo feedback. Vocês são demais.