O guarda do cemitério

Posted by tarrask on July 04, 2012 · 6 mins read

_Dedicado a Priscilla Farinazzo, _porque envelhece comigo.

Pouco depois do por-do-sol, Antônio se sentava, acendia um cigarro e esperava os fantasmas aparecerem. Não que fosse comum, na realidade nunca havia acontecido, mas era a única possibilidade de quebrar o tédio da noite. Já era rotina nos últimos anos passar a noite acordado, olhando o vento balançar as árvores e a lua criar sombras fantasmagóricas nas lápides. Raramente, podia até ouvir um barulho, um gato ou um morcego. Nos primeiros tempos, chegava a se assustar, mas se pegava com uma medalhinha de Nossa Senhora e ia ver o que era, até que cansou de tanto olhar e passou a não se surpreender.
“Que nada – costumava dizer quando passava para pegar uma garrafa de café no botequim da cidade antes do trabalho – se tiver fantasma por aqui, eles vivem dormindo. Nunca vi nenhum.”
O povo olhava desconfiado para seu Tonho, mas também agradecido. Foi um pedido do prefeito e do padre que alguém aceitasse o emprego. Pagavam bem, e o sacerdote fez questão de dizer ao povo, logo depois do acontecido, que seria alguém de muito valor e de muita fé, que Deus iria recompensar com muitas graças e saúde pra família, ao distinto que se sacrificasse para defender os que não podem mais se defender sozinhos de um pecado tão feio e sórdido.
A cidade era muito pequena, e qualquer trabalho era difícil. Quase todos viviam de agricultura ou de criar pequenos animais e poucos trabalhavam em fazendas maiores, de proprietários nascidos duas gerações depois da riqueza. Era o destino de Antônio, mas ele preferiu aceitar a oferta do padre e se tornou o primeiro guarda do cemitério. Ganhava um pagamento da prefeitura para ficar a noite inteira acordado, para que ninguém entrasse no campo santo. Era um problema porque teria que passar a maior parte do dia dormindo, e algumas pessoas lhe olhavam torto. O medo da morte se estendia a medo dos mortos, mesmo parentes.
Ninguém nunca soube quem foi que atacou o túmulo que deu origem ao trabalho de Antônio. Apareceu escavado, o caixão já podre e meio aberto, lá dentro o que sobrou de uma vida que acabara décadas antes. Chamaram os parentes para perguntar o que havia dentro. A filha desmaiou, um irmão começou a protestar a falta de respeito, a viúva foi correndo chamar o padre. Decidiram fechar novamente, cobrir novamente e rezar uma missa. Até então, missa resolvia tudo.
Na missa, o padre foi o primeiro a sugerir o emprego. Como era homem importante, a idéia terminou acatada. O prefeito ofereceu o salário. Antônio aceitou.

Desde aquele dia, nenhum outro túmulo foi aberto, e todos acreditavam ser por eficiência do trabalho do guarda. Ele, que passava os primeiros dias todos dormindo, desacostumado com a vida noturna, agradecia sonolento. De noite, morria de medo, mas não podia desistir. Era cabra macho, e se os espíritos viessem, que viessem armados, que ele tinha uma peixeira. Qualquer barulhinho causado pelo farfalhar das copas das árvores, qualquer ratazana passando perto, ele se encolhia, rezava dois ave-marias e então ia ver o que era. Terminou arranjando um cachorro para fazer companhia e caçar os ratos.
Perto do amanhecer, Tião das Dores passava tangendo seus bois e ele sabia que era a hora de ir embora. Corria pra casa e dormia a sono solto até a hora do almoço, quando levantava, comia a comida que a mulher deixava antes de ir pro roçado, ficava sentado na frente de casa conversando com qualquer pessoa, até que ia ao botequim pegar a garrafa de café quente e começava novamente a trabalhar.
Puxava assunto com qualquer pessoa, sempre que podia, e conversava sobre qualquer assunto. Sempre tinha uma história nova para contar, que ninguém sabia de onde tirava. Diziam que eram os fantasmas que contavam, durante a noite.
“Que fantasma o quê! Passo a noite pensando em besteira, que não tem mais nada para fazer.”

Contar histórias terminou virando sua solução para o tédio. Ficava matutando a noite inteira. Esquecia a maioria, e se arrependia de não saber escrever. Mesmo assim, algumas pessoas começaram a gostar das histórias, e no fim do dia, sempre apareciam alguns cativos para ouvir. Ele se sentia feliz e apreciava a companhia.
Contava histórias sobre o vaqueiro que levou duzentos bois da fazenda do doutor Cosme por causa de uma aposta, do homem que tinha uma fazenda de mulheres do outro lado da serra, e tinha a qualidade que o sujeito quisesse, pra escolher, da menina que era tão apaixonada pelo capitão da polícia que virou passarinho quando ele morreu enfrentando bandido, e outro mundaréu de histórias, que o pessoal achava bonito, as vezes contava histórias de heróis, de santos e de bicho. Uma vez até o padre apareceu para ouvir. Ele sempre dizia que as histórias eram inventadas, mas poderiam ser de verdade. Só não falava de um assunto: fantasma.

“A solidão, pensava Tonho, termina fazendo a gente pensar nessas histórias. Se eu tivesse alguma coisa pra fazer, seria um desperdício, mas como eu não posso fazer nada a noite toda, pelo menos ocupo a cabeça. E o pessoal gosta de ouvir. Eu gosto mais do tantim de tempo que passo contando que esse bolo de horas que passo sozinho aqui.”

Uma noite, quando pensava numa história sobre um cachorro que não latia, ouviu uma voz falando o nome dele. Pegou uma lanterna, se levantou, cutucou o cachorro e tentou ver de onde vinha. Era o fantasma do túmulo que tinha sido aberto anos atrás.

Desde então, o cachorro nunca mais latiu e se acabaram as histórias de Tonho.