Por que será que na ficção científica as máquinas emburrecem a humanidade?

Domingo pela manhã me deparo com um artigo sobre a singularidade. É um tema que eu gosto bastante: o dia em que as máquinas alcançam a consciência, em que nós, humanos, criamos algo mais inteligente que o cérebro homo sapiens. Durante a leitura do artigo, me surgiu uma dúvida séria:

Porque, em todas as obras de ficção científica, as máquinas usam os seres humanos como escravos burros?

Pense aí: Skynet, Paranoia, Cyberpunk: as máquinas dominam ou tentam dominar a humanidade para escravizá-la e usar as pessoas como peões físicos.

Acho que notei uma falha lógica aí, e se calhar, alguém já viu antes, mas lá vai. Pra quê um robô precisaria de um humano como escravo, pra carregar coisas, fazer força ou algo assim? É mais lógico, como no universo Matrix original, usar o cérebro como processador da rede, mas não tem nenhum sentido ter humanos como escravos pra construir prédios. Máquinas burras são melhores do que um corpo humano. Uma máquina inteligente, então, nem se fala.

Ou seja, se eu fosse um Robô Evil Overlord, não usaria os corpos humanos como peões, usaria os cérebros. Então, a lógica não seria escravizar as pessoas mais fortes/físicamente capazes, mas usaria os melhores cérebros. Os mais inteligentes. Num ponto de vista Robô inteligente, teria mais sentido eliminar os burros e só manter os mais inteligentes humanos.

E dum ponto de vista evolutivo, também seria melhor para a raça humana eliminar os burros.

Singularidade

Num ponto de vista máquina, a evolução tenderia para a eficiência

Um Robô Evil Overlord tentaria juntar a maior quantidade de inteligência possível na menor quantidade de humanos. Logo, um apocalipse robô seria a eliminação sistemática de muita gente, populações inteiras, e a salvação somente de indivíduos-chave. Na ficção científica normal, a população fica ali, escravizada, lobotomizada. Não vejo a lógica nisso. Seria mais robô (e até mais cruel, logo melhor, num sentido narrativo) eliminar os fortes e burros, até as pessoas médias, e manter somente os mais brilhantes. E, considerando que para um cenário desses ocorrer é necessário que os robôs sejam mais inteligentes que os humanos, eles saberiam encontrar os The Ones mais facilmente.

Numa pirâmide evolucional, se os robôs não eliminassem toda a espécie humana, acho que manteriam somente os brilhantes no meio da pirâmide. Os brutos escravos seriam máquinas, e o topo, a elite, também seriam máquinas. Os humanos ficariam no meio, gerando imprevisibilidade.

E por que pensar nisso num domingo pela manhã?

Não sei. Li o artigo, me vieram as ideias, distribuí aqui. Quem tiver algum pitado, diga. Talvez daqui a alguns anos isso sirva como ideia base para alguma coisa, talvez não sirva pra nada. Mas fica guardado em público que eu também penso besteiras e jogo logo as ideias pra fora, pra elas não ficarem gangrenando dentro do meu cérebro.

PS.- este foi um post muito rápido e que menciona storytelling pra caramba, então o @brunoscarto está obrigado a deixar um comentário abaixo. Se não, ele vai ser o primeiro a ser eliminado pelos robôs invasores.


0 Comments on “Por que será que na ficção científica as máquinas emburrecem a humanidade?”

  1. O que me intriga mesmo é como os extraterrestres são retratados: sempre humanoides, colonizadores, exploradores e com outras aspirações tipicamente humanas. Isso só mostra como o ser humano é previsível: só imagina as coisas desconhecidas com base no que ele conhece; e acho que isso também vale para as máquinas…

    1. Pois é. Imagine só: o exército americano tem tecnologia de drones pra bombardear e atacar os inimigos sem mandar soldados.

      Se você fosse uma raça superior alienígena querendo invadir, iria mandar soldados ou encontraria alguma forma de só chegar aqui quando tivesse tudo já dominado?

  2. E para que um robo evil overlord precisaria juntar mentes brilhantes de humanos quando ele poderia fabricar outros robôs pensadores com capacidade de processamento milhares de vezes superior aos poucos Einsteins que ele deixaria sobrar em sua seleção natural cibernética? (aliás, sabe-se lá que critério para “inteligência” um robo usaria, mas acho que músicos, artistas plásticos, ativistas políticos, nada disso ia prestar muito, no máximo os físicos e matemáticos).

    Um robo não precisaria de mentes humanas inteligentes, meu caro, simplesmente ia eliminar a todos. Ou talvez não eliminasse ninguém e simplesmente nos ignorasse em nossa ignorância. Você se equivocou sobre Matrix, os robôs não usavam os homens como processamento, eles usavam como energia, já que sua fonte de energia primária (luz do sol) foi eclipsada pelos homens. A Matrix reduziu o homem a uma pilha, metáfora do próprio filme.

    Como você tirou um tempo para pensar “pq diabos uma máquina precisaria escravizar um homem para realizar trabalhos forçados?”, pense também no seguinte:

    – uma máquina precisaria de um corpo imitando aos humanos? ou poderia viver tranquila num canto, cheia de cabos para lá e para cá levando e trazendo informação e procesando dados feliz da vida?
    – se seu robô é humanóide, ele teria desejos e necessidades humanas? Ele ia querer almoçar? Transar? Assistir futebol domingo ou levar o cachorro para passear ou ele teria algo de mais útil para fazer da vida? E se sim, o que de tão útil ele faria com um corpo humanóide e capacidade imensa de processamento na cachola?
    – Talvez o mundo assim fosse somente uma massa de robôs intelectuais discutindo o último volume de “A dialética binária”, com a vantagem de poder discutir infinitamente já q não iam precisar para pra dormir, comer ou ir ao banheiro.

    – Acho que se ficarmos racionalizando e destruindo sabe-se-lá o que o “arquétipo do robô ou do alien dominador” representa, a gente chega ao ponto em que seria absolutamente inútil a existência de uma sociedade de robôs, simplesmente pq eles não teriam propósito (olha o matrix ai). Não imagino robõs tão inteligentes indo a escritórios, ou andando de carro pela cidade, viajando para Acapulco e colocando as fotos no Facebook para fazer invejinha nos amiguinhos robôs, a não ser q eles não fossem esse brilhantismo todo e sim apenas cópias de humanos, mas feitos de circuitos e carcaça de metal em vez de carne e osso.

    Em ambos os casos, eles não precisaria da gente pra nada =P

    1. Rapá, o comentário é maior do que o post, tô impressionado. Xo tentar responder só um ponto que não ficou claro.
      Vi em algum lugar (não lembro onde, ou se foi um sonho) que o universo original do Matrix não usava os corpos humanos como fonte de energia (pra mim, uma das coisas mais fracas do contexto), mas usava os cérebros como processadores de uma rede neural muito mais poderosa do que uma criada com silício. Aí sim faz sentido usar os cérebros interconectados, e quanto melhor o cérebro, melhor a rede.

      Outra vantagem de usar humanos é a capacidade de pensar colateralmente, ter insights, chame como quiser. Também seria útil. Ou seja, transformar os humanos em processadores teria sentido. Em pilha não. Talvez isso não tenha ficado claro na hora que eu escrevi o post.

      Quanto ao resto do seu comentário, concordo. Uma sociedade robô não teria sentido, mas, sendo um pouco mais inquisitivo e menos responsivo, deixo pra você continuar dissertando:

      – a sociedade só de robôs não teria objetivo nem sentido. a sociedade humana tem? Os robôs não seriam simplesmente uma evolução natural do universo, sem rumo, navegando no vácuo da existência?

  3. Pois, na verdade nossa vida tb não tem sentido nenhum, a não ser aquele que a gente cria. Como vc disse, a gente tem essa maluquice de insights, de simbolismos e de atribuir significados pras coisas. Seja uma tribo de índios que encontra uma pedra qualquer no meio do mato e a transforma num amuleto e diz q aquela pedra possui poder divino de proteção ou de qq outra coisa, seja outra tribo que acredita que um iphone seja muito mais que qualquer telefone e tenha poderes místicos-divinos atribuído pelo próprio Jobs em cada uma das unidades montadas na China, hehe.

    Acho que se um dia uma inteligência artificial conseguisse reproduzir esse tipo de criação de significados, ai sim a gente ia virar escravo, hehe.

    Abs!

    1. Acho que, pra ser considerada uma inteligência, a máquina precisaria ser capaz de criar, ou de pelo menos interpretar, significados, não?

      Aí vem a utopia distópica. 😀

  4. Acho que as máquinas emburrecem a humanidade porque, se todo mundo for burro, aquele que se rebelar (o The One da vez) mostrará aos demais o caminho da liberdade.
    Liberdade física e mental, no caso.
    Sim , sim, a velha e overcitada Jornada do Herói, de Campbell.
    Acho que é isso, sem entrar em discussões “tempestade de fogo” (aquelas discussões gigantescas que se alimentam de si mesmas e continuam indefinidamente sem chegar a lugar algum).
    Lembra do filme Wyllow, onde o Mago pergunta para os possíveis aprendizes em qual dos dedos dele estava a Magia e Wylow mais tarde lhe conta que sentiu que a resposta era seu próprio dedo?
    Pois é, essa opinião veio meio que do mesmo modo.
    Sem pensar demais.
    Até a próxima.

    1. O seu ponto de vista justifica a maioria das obras de ficção distópica que eu conheço. Porém, acho que é possível criar um cenário alternativo, no qual as máquinas inteligentes fazem seleção artificial com humanos escravizados, do mesmo jeito que nós fazemos com cachorros, vacas ou quaisquer outros animais ou vegetais.
      E isso seria uma boa argumentação. O que acham?

  5. Vale responder atrasado? Tenho alguns pontos para comentar.

    “Os humanos ficariam no meio, gerando imprevisibilidade.” – conceito brilhante! A única coisa que as máquinas, em tese, não podem gerar, não é mesmo?

    Por acaso sempre cito esses filmes de ficção científica em que o homem luta contra a máquina em aula e palestras como exemplo de histórias aparentemente bobas, mas com grandes questões por trás.

    E a questão aqui pra mim é clara: a relação do homem com a ferramenta.

    Desde o momento em que nossos ancestrais criaram a primeira faquinha, machadinha ou coisa que o valha, ou seja, desde o primeiro fruto da tecnologia, vivemos uma relação ambígua.

    Ao mesmo tempo que essa tecnologia nos fortalece, ela também nos escraviza. Um homem das cavernas com uma faquinha é, na média, muito, mas muito mais poderoso do que um só com as mãos (supondo que os dois tenham a mesma habilidade de luta). Isso, no fundo, significa uma chance muito mais de sobrevivência.

    Em compensação, a partir do momento em que nos acostumamos com o poder de uma tecnologia nos tornamos dependentes dela. Estou falando da faquinha robusta ou do power point, tanto faz.

    No fundo essas histórias de homem versus máquina tem a ver com isso. E a coisa dos robôs escravizando os humanos é só uma alegoria, uma metáfora. Se fosse realista (e concordo com sua análise) não teria graça. 🙂

    1. Bruno, responder atrasado vale três pontos. Divulgar no twitter vale sete! 🙂

      Não sei se você já leu o livro What Technology Wants, do Kevin Kelly, em que ele fala de como a tecnologia tem uma tendência a evoluir, de uma forma parecida com a evolução natural.

      É o que faria uma pedra lascada virar uma faquinha, e depois virar uma serra-elétrica em filme de terror;

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.